Opinião Pública X Opinião Publicada
Todo o dia eu acordo e leio o jornal, finjo espanto com a onda crescente de violência que assola as grandes cidades, faço algum comentário irônico sobre a subida ou descida do dólar (que na verdade não afeta minha vida cotidiana em nada), vejo os resultados dos últimos jogos na seção de esportes e me deixo informar sobre os acontecimentos nacionais e internacionais. Sigo então para o trabalho.
Chego em casa já de noite, preparo algo para comer e sento-me em frente à televisão para acompanhar o telejornal, que trata de me explicar tudo o que aconteceu no meio tempo em que eu trabalhava, preenchendo as lacunas possivelmente deixadas pelo jornal lido pela manhã.
Esse processo se repete dia após dia, tal qual na música de Chico (todo dia ele faz tudo sempre igual), e é vivido por dezenas de milhões de brasileiros que, como eu, procuram informações diárias nos jornais, telejornais, rádios e internet. Tais veículos de comunicação de massa são os responsáveis por nos manter a par do que acontece em nosso país-continente.
Justamente por estarem tão diretamente ligados à vida diária dos brasileiros, nada mais normal que esses veículos auxiliem na formação da opinião pública nacional. É até esperado o chamado “efeito bola de neve”, por meio do qual a imprensa divulga denúncia contra determinado segmento da sociedade fazendo com que os leitores e/ou telespectadores se indignem e cobrem providências, dando mais força para as críticas feitas pela imprensa, que geram novas ondas de indignação etc. É normalmente assim que a banda toca e não devemos esperar algo diferente. Ou devemos?
A última semana antes das eleições presidenciais trouxe consigo um enredo digno de uma grande novela cômica, da compra de um dossiê inexistente a um novo rompante de indignação de um presidente que se acostumou a repetir a mais de ano a mesma frase: “Eu não sabia”. De fato, os jornais e revistas tiveram farto material com o que trabalhar após a prisão, pela Polícia Federal, de dois assessores diretos de Lula, acusados de tentar comprar um dossiê contendo suposto material que comprometeria José Serra (candidato tucano ao governo de São Paulo) com a máfia dos sanguessugas.
A compra de tal dossiê, mais do que o pretenso conteúdo deste, foi alvo de duros ataques, proferidos tanto pela mídia quanto por opositores do governo petista. Em resposta, o pronto afastamento e demissão dos envolvidos e o pedido de urgência nas apurações sobre a origem do dinheiro e sobre os demais envolvidos na referida tentativa de compra.
Ora, por mais que o presidente atual, candidato à reeleição, negue qualquer participação ou sequer o conhecimento do ilícito praticado por membros do governo e de seu próprio núcleo de campanha, as denúncias publicadas poderiam ser consideradas suficientes para gerar o efeito bola de neve mencionado anteriormente, sendo esperada a queda de Lula nas pesquisas de intenção de voto (51,4% em 29 de agosto, de acordo com pesquisa feita pelo Instituto CNT/Sensus).
A última pesquisa realizada pelo instituto CNT/Sensus, contudo, mostra que nosso presidente e presidenciável manteve o mesmo percentual de intenções de voto, com uma levíssima variação negativa, caindo dos 51,4% para 51,1%.
O que pensar então? Que a pesquisa não refletiu de forma adequada as transformações ocorridas com os eleitores em menos de uma semana como pensa o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin? Que as denúncias feitas pela imprensa não estão chegando aos eleitores? Ou que o brasileiro, após tantos escândalos, e como disse o próprio presidente Lula, “quer saber se a vida dele está melhorando” e nada mais?
Mais importante do que tentar achar a resposta certa para as indagações feitas talvez seja refletir sobre elas. Afinal, a única certeza que se pode ter é que, ao contrário do que escreveu o poeta John Donne alguns séculos atrás, nosso presidente parece, sim, ser uma ilha, isolada do continente petista que trama contra sua vontade e pratica atos ilícitos sem o seu consentimento ou conhecimento.
Talvez a pesquisa feita não reflita as mudanças sofridas no panorama político atual... Talvez as denúncias da mídia não estejam atingindo o público ou talvez este simplesmente não se importe mais. Todavia, se este é o caso, é melhor que nos preparemos para, em futuro muito próximo, abrir os jornais para nos espantarmos (em matéria de primeira página) com a descoberta de um político honesto e ver na página de esportes os campeões de corrupção, dignos de índices olímpicos.

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